30 de dezembro de 2009

Coisas de gente velha

Gente velha adora relembrar o passado e contar suas histórias, do tempo que ainda não eram velhos. Hoje, eu vou contar um pouco desses meus últimos dez anos, sei que é coisa de gente velha, mas acabei notando que estou ficando velha!
Há dez anos atrás eu não sabia ler, minhas preocupações se resumiam a vestir a minha boneca e correr pelo jardim, em meus sonhos sempre era a branca de neve e vez ou outra me revoltava por que crescer demorava muito. Eu queria crescer, apenas para ser grande e não ter que responder aquela pergunta chata, que todo o parente distante, após apertar as bochechas de uma criança faz: O que você quer ser quando crescer? Desde essa época eu já era um pouco respondona, por assim dizer, e inúmeras vezes fiquei de castigo por responder a esses parentes chatos, de forma igualmente chata. Geralmente eu falava apenas: Quero ser grande. Mas depois, quando já estava de saco cheio daquilo tudo colocava um dã! no final da frase e ia para o castigo.
Meu castigo era ficar no meu quarto para pensar, eu odiava, mas era um castigo tão fácil. No meu quarto eu nunca pensava em nada, minhas bonecas estavam lá! Eu brincava durante o meu castigo e quando escutava a aproximação da minha mãe, ou quando ela batia na porta, eu deitava na cama e colocava o rosto no travesseiro. Minha mãe conversava comigo e no final nos duas riamos da situação. Fim do castigo e da brincadeira escondida.
Os dias de chuva significavam tristeza e o sol sempre me fazia sorrir. Adorava colocar as roupas da minha mãe me fingir de dentista, mesmo odiando ir a um dentista, queria ser como a minha mãe. Tinha uma mania boba, de chorar ao assistir Dumbo e de ver Chaves para rir. Odiava os meninos, eles eram porcos, sujos e ainda por cima se achavam melhores que as meninas. Cansei de correr pela escola atrás de um desses porcos que havia pego a minha boneca ou a minha lancheira.
Era gordinha e feliz, meu quarto era rosa e eu me achava a Barbie de cabelos pretos. Acho até que eu tive uma fase inspirada na Barbie, do tipo rosa é fashion, viva o rosa! Os dias passavam lentamente e eu não ligava para o tempo, não precisava, era uma criança. E crianças não precisão se preocupar com nada, são crianças e isso basta.
O problema ou a solução é que eu cresci, como eu queria tanto quanto pequena, eu cresci. E então tudo mudou, hoje eu sei ler e minhas bonecas já estão com outras crianças que devem amá-las tanto quanto eu as amei. Hoje, meus sonhos não se resumem a contos de fadas e os pesadelos são bem mais freqüentes. Não quero mais crescer, na realidade não quero envelhecer já que segundo minha médica não devo crescer nem mais dois centímetros. E meu metro e sessenta e sete não me agrada muito.
Acho que o bom de ter crescido é que não apertam mais as minhas bochechas, porém ainda me fazem aquela pergunta chata só que de uma forma mais madura e igualmente chata: O que você vai fazer no vestibular? A resposta então é ainda mais difícil, pois não posso dar uma de criança respondona e sinceramente eu ainda não sei a resposta. Ter que escolher o meu futuro, ter responsabilidades e não poder apenas ser uma criança, são coisas com as quais tenho que lidar. Mas nada é de todo ruim.
Hoje posso sair com meus amigos e atravessar a rua sem dar as mãos a meus pais. Eles confiam em mim para muitas coisas. E acabei descobrindo que não quero ser igual a minha mãe, ainda odeio dentistas e odeio mais ainda biologia. Descobrir mais de mim foi uma das melhores coisas que me aconteceu nesses tempo que se passou. Decobri que sou uma pessoa diferente das outras, diferentes dos meus pais e que não faz sentido querer ser igual a ninguem.
Hoje quando faço algo errado meu castigo tem haver com não sair de casa, mas não tenho minhas bonecas para serem minhas cúmplices em meus castigos. Realmente fico deitada na cama, às vezes com um livro que é escondido debaixo do travesseiro quando minha mãe vai ao meu quarto, e ainda rimos ao final de meu castigo. Quando querem ser cruéis, meus pais, me deixam sem dinheiro, me mostrando o quanto eu ainda dependo deles. Confesso que não quero mais crescer, nem envelhecer, mas gostaria de ser independente.
Não choro mais ao assistir Dumbo, mas me desmancho com Um Amor para Recordar. Não acho que os meninos sejam porcos e não corro atrás deles, já que não roubam mais minhas bonecas. Não sou uma gordinha feliz, e sim uma pessoa eternamente em dieta. Os dias de chuva representam descanso, e o sol ainda me faz sorrir.
Tenho quinze anos e no dia três de janeiro completo dezesseis verões. Dezesseis muito bem vividos verões, acho que nessa minha 'coisa de gente vela', mostrei o quando mudei e o quanto o tempo realmente me mudou. Essa década não foi apenas mais uma, foi a primeira de nosso milênio e a minha primeira década completa também. É mais que apenas um conjunto de dez anos, é uma vida, cheia de experiências, tristezas, alegrias e mudanças, muitas mudanças. Eu mudei, mas não gostaria nem por um segundo de voltar no tempo. Acho que a vida é isso, mudar e ser mudado, mas as coisas passam e brincar de boneca ou querer ser a Barbie já passou.
Os momentos maravilhosos dessa década foram eternizados em fotografias e na minha memória. Mas passaram e não devem voltar mais. Que venha dois mil e dez e a próxima década. Com mais experiências e mudanças, com o mínimo de tristezas possíveis e o máximo de alegrias.
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Desejo um Feliz Ano Novo a todos, e agradeço por fazerem esse meu ano tão especial. Visitando e me fazendo tão feliz nesse blog. Beijos, Mel

29 de dezembro de 2009

A resposta

Querida Melanie,
Quero antes de mais nada me desculpar por não poder atender o seu pedido. Existem crianças que necessitam de um coração novo, fisicamente, e isso está fora das minhas possibilidades, porém reconstruir um coração partido é ainda mais difícil e ainda mais fora das minhas possibilidades. Se você me pedisse uma boneca, um carrinho ou uma bola você o receberia. Apesar de seu mal comportamento, vejo que já não é mais uma criança e a vida adolescente é realmente estressante.
Querida, tento por meio dessa carta me desculpar pelo seu pedido não atendido e por não ter podido te dar nada que ao menos se assemelhasse com o que você pediu. Nunca tive meu coração assim, mas tenho certeza de que não é fácil viver com um buraco no coração, ninguém, nem mesmo a criança mais sapeca, merece um castigo como esse. Posso lhe assegurar uma coisa, que não sei se vai lhe agradar, mas vai me satisfazer, esse garoto que a fez e faz sofrer tanto receberá carvão nesse Natal!
Seu outro pedido de paz e espírito natalino será atendido por completo e sua família terá um Natal magnífico. Peço que não me julgue por minha incapacidade de atendê-la e que não se esqueça de me mandar outra carta no próximo ano, contando me sobre seu coração e me pedindo uma coisa que eu possa atender. Espero que essa cartinha de desculpas, te mostre que realmente sinto muito.
Beijos, daquele que em todos os natais sempre olhou por você com carinho, até quando você descobriu sua bicicleta no banheiro e parou de acreditar em mim. E também daquele que entende a sua dor e torce para que ela acabe logo, mas acha que essa dor foi bem vinda se te fez voltar a me escrever.
Papai Noel

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Essa carta é a resposta que ganhei depois de minha cartinha ao Papai Noel. Pelo menos ele me respondeu! Quem quiser ler a cartinha, é aqui. Prometo que amanhã posto algo sobre o ano novo, tipo uma retrospectiva, mas achava que a resposta da carta que enviei deveria estar aqui. Espero que gostem e desde já, feliz Ano Novo! Beijos, Mel